Assim foi a conclusão de um sonho de infância, que por tantos momentos acreditei ser impossível e inalcancável. Isto é para a Maria João de 4 anos, que aprendeu a amar o Hospital quando lhe foi diagnosticada uma doença autoimune. É para a Maria João de 10, que já tinha a certeza que queria ser médica. E é em especial para a Maria João de 16, que tanto chorou e lutou, mas que, apesar das dificuldades, nunca desistiu; queria dar-lhe um abraço, prometer-lhe que vai valer a pena, e que a vida lhe vai voltar a sorrir.
Durante este 6 anos, conheci várias versões de mim. Passei de uma criança tímida e receosa para uma mulher com uma voz, e aprendi a valorizar a minha saúde acima de tudo, mesmo que isso implicasse tentar de novo. Aprendi que a vida não é uma corrida, e que nem tudo termina da forma como desejamos - o que, por vezes, é pelo melhor.
Despeço-me com a certeza que dei o meu melhor, que vivi intensamente, e que nada faria de diferente. Vou carregar para sempre as memórias dos momentos mais felizes, e os ensinamentos dos mais tristes.
Obrigada ICBAS, por seres casa. Obrigada por todas as pessoas que me trouxeste: sem vocês, nada valeria a pena! Obrigada à minha família, em especial à minha mãe, avós e tios, que sempre me apoiaram nos momentos mais difíceis. E um obrigada ao César, por dar cor e alegria à minha vida.
Questionava-me como se sentiriam, ao se despedirem da casa por que tanto lutaram para entrar, ao vaguearem pelos corredores do edifício pela última vez, ao dizer adeus a colegas que talvez nunca mais irão encontrar. Questionava-me se se sentiriam tristes, melancólicos, até desolados.
Agora, percebo que o sentimento é diferente.
O passar dos anos ensinou-me que os fins podem ser alegres, floridos. Por muito que me sinta já parte das paredes da casa, é altura de me desprender e crescer. O resto da minha vida está à espera.
É impossível quantificar a minha evolução. Talvez não me reconhecesse, se por um acaso do espaço-tempo me encontrasse com o meu eu adolescente. Mas foi pela sua paixão, dedicação, e perseverança que aqui estou, e por isso estou eternamente grata.
Aprender a arte da Medicina vai muito além do estudo individual, e o contacto com os doentes é fundamental: seja através da colheita de histórias clínicas, realização de exame físico, ou até mesmo pela observação de consultas e procedimentos realizados pelos profissionais. Sem a componente prática não se aprende.
Apesar da vulnerabilidade da doença, da ansiedade, muitas vezes do cansaço, a maioria dos doentes nunca negou a nossa participação. Seria compreensível se o fizessem. No entanto, recebem-nos sempre com um sorriso, e mostram-se sempre disponíveis a ajudar e a participar.
Quem sofre mais são os que têm os quadros mais típicos: não é infrequente falarem com vários grupos de alunos, para partilharem os seus sintomas. Várias vezes.
Com o tempo, aprendi a ser mais seletiva nas questões. A insegurança dos primeiros anos fazia-me questionar tudo, com receio de me esquecer de algo importante para o diagnóstico. Agora, mais rápida e confiante, posso ouvir mais: os diferentes trabalhos que teve ao longo da vida, a idade dos netos, o talento secreto e hobbies, as dificuldades que tornaram a sua vida mais difícil. E é a ouvir que se conhece a pessoa, e não a doença.
Então, queria agradecer a todos que nos dizem sim. Não só porque nos tornaram melhores a perceber sintomas, doenças, e a realizar exames físicos; mas também porque nos ensinaram a ouvir, a sair da nossa bolha e a compreender melhor o próximo.
Um olhar assustado, que gritava mais alto que as palavras de motivação e incentivo. Uma equipa pronta, com materiais e resguardos, atenta à hora que marcariam os ponteiros do relógio, religiosamente posicionado em frente à marquesa. Depois de alguns gritos e do apoio de uma ventosa, um choro.
Nasceu bem. Bom peso, boa estatura, boa vitalidade e cor. Perfeitamente embrulhado numa manta, é entregue aos pais, que o recebem com um sorriso e algumas lágrimas de felicidade. É até comovente presenciar tanto amor e união.
Ver alguém nascer é um privilégio. A beleza do parto vai muito além do ato em si. Há algo de especial em ver alguém respirar pela primeira vez; é como comprar um novo caderno - um monte de folhas em branco, por preencher, uma história de vida por escrever.
E vestidos nas roupinhas cuidadosamente escolhidas pela família, muitas vezes tão grandes que os tornam ainda mais pequenos, esperam o momento em que poderão finalmente conhecer o mundo lá fora. É tudo novo!
Muitas vezes me dizem que para ser médico é preciso ter "sangue frio". Ver a vida de outros virada do avesso pela doença, pela morte, pela incerteza, e não sentir nada. E apesar de entender quem o encare dessa forma, não podia discordar mais.
Ver o doente é mais do que ver a doença, e inclui descortinar e entender a sua dor (física e mental). Inclui ser empático, saber ouvir, e compreender as suas prioridades, por muito distantes que sejam das nossas, e por muito diferentes que sejam do plano terapêutico.
É me impossível permanecer inalterada perante a dor dos outros. Poucas são as vezes em que não me imagino nas suas posições, e reflito sobre o quão difícil seria ter de lidar com um evento tão abrupto, um diagnóstico tão dificíl. Estar sozinho, num internamento, com pouco para fazer além de pensar em tudo e em nada. É árduo, e já me vi a lutar contra o impeto de chorar, especialmente com certos testemunhos, ou até mesmo agradecimentos!
Por outro lado, o excesso de trabalho também dificulta o contacto, por muito que se queira ouvir e escutar mais. Os doentes podem-nos ensinar bastante, se assim quisermos.
Por isso, não, não acho que seja pior profissional porque sou sensível. A sociedade fechou-se tanto, partilha tão pouco, que o contrário assusta. Mas um sorriso, uma palavra acertada, ou apenas uma escuta ativa, podem ajudar muito quem necessita (dentro e fora do hospital).
Já não passo por este cantinho há bastante tempo. Não é que me falte inspiração, ou o que dizer e contar (muito pelo contrário); falta-me tempo. É algo que tenho dito muito nestes últimas dias.
Os estágios são cada vez mais exigentes, e o estudo não pode parar.
Entristece-me um pouco ter de abdicar da escrita, quando é algo que me traz tanto felicidade e concretização. Mas é apenas um até já.
E como tem corrido este último ano?
Sinto que vivi 2 vidas no espaço de 6 meses. Para o bom, e para o mau. Por um lado, sinto que vi e aprendi bastante; por outro, sinto que estou constantemente num estado de incerteza. Os estágios são curtos, logo, quando me adapto ao local e às pessoas, é altura de partir para outro, como se mudasse de local de trabalho a cada 6 semanas. Não está a ser fácil.
Está a ser igualmente importante para perceber o estado do SNS, e aquilo que me espera num futuro muito próximo: urgências caóticas, enfermarias carregadas de casos sociais, falta de recursos e de pessoal. Há muito a fazer para lutar pela saúde em Portugal.
Duvidas frequentemente das tuas capacidades, apesar de teres sempre bons resultados? Acreditas que o teu sucesso se deve mais à sorte do que ao teu trabalho, e que és na verdade um impostor, ou uma fraude? Parabéns, tens síndrome do impostor.
Este padrão de pensamento acompanhou-me ao longo do meu percurso académico, em alguns momentos mais presente do que noutros. No entanto, neste último ano, tem sido uma constante. Saio de todos os exames com a certeza de que irei reprovrar; imaginem a minha surpresa a ver uma nota excelente na pauta. E por muito que tente avaliar o porquê desta insegurança, não consigo entender quando e porque começou. Eu estudo bastante, com muita antecedência, logo sei todos os detalhes que podem ser questionados no exame; é lógico que terei uma boa nota. No entanto, duvido sempre. Questiono-me se existe alguma coisa que me falhou, algum tópico que não estudei, ou algum detalhe que me esqueci. Acredito que no exame o meu cérebro se irá desligar, e que serei incapaz de raciocinar. E quanto mais estudo, mas receio tenho.
Penso que neste ano se tenha intensificado por não poder reprovar a nenhuma cadeira; uma reprovação implicaria que não poderia passar ao ano seguinte, logo ficaria para trás, separada dos meus colegas (a isto se chama ano barreira, na medicina). Esta pressão, esta expectativa, torna-me mais insegura, mais obsessiva com o meu estudo.
Enfim, o ano terminou, e posso finalmente respirar e libertar-me destas inseguranças. Está feito!
Terminei recentemente de ler "As Intermitências da Morte", e é impossível ficar indiferente à abordagem de Saramago à temâtica do fim de vida.
*Atenção, este texto tem spoilers!*
Num país onde ninguém morre, todos festejam. A ideia da vida eterna é apelativa desde sempre, se não for em carne, pelo menos em espírito. No entanto, Saramago expõe o outro lado da moeda: doentes e familiares em sofrimento, camas de hospital a abarrotar, lares de idosos com cada vez mais utentes, e até mesmo todas as implicações económicas. A morte passa a ser desejada, como uma forma de livrar os doentes, e a sua família, do seu sofrimento, e há até quem leve os familiares aos países vizinhos.
Curiosamente, este semestre tive uma cadeira de Cuidados Paliativos, e o tema do fim de vida esteve muito presente nessas aulas. No entanto, não se enganem; os Cuidados Paliativos não se aplicam apenas nos últimos dias de vida, e muito menos apenas em doentes oncológicos. Na verdade, aplicam-se a todos aqueles que têm uma doença que possa interferir na sua qualidade de vida. O objetivo é controlar a sintomatologia associada à doença e trazer conforto, assim como ajudar o doente em vários campos da sua vida: o cuidado psicoemocional, socioeconómico e até espiritual. É uma abordagem completa, que não promete curas, mas sim conforto.
Um dos aspetos fundamentais é o luto: o luto da saúde, da vida antes do diagnóstico, da própria morte. Este processo é individual, único, e importante na aceitação da morte. No livro de Saramago, no momento em que a morte decide voltar, decide também mudar o seu procedimento, passando a alertar todos os indíviduos, através de uma carta, com sete dias de antecedência. Ora, isto traz o caos, o medo. Ninguém quer saber o momento exato da sua partida, e sete dias não são suficientes para aceitar algo que estamos biologicamente programados a evitar. Apesar disso, há que entender a posição da morte: ela pretende dar tempo para que estes individuos coloquem os seus assuntos em ordem; seja heranças, despedidas, pedidos de desculpa. Tudo isto é fundamental num doente em fim de vida, e abordado também pelos Cuidados Paliativos.
Assim, após um semestre a estudar estas questões, foi interessante ler este livro, que tanto fala sobre a morte e a perspetiva do ser humano sobre a mesma!
A minha professora chamava de Jardim do Éden ao hospital psiquiátrico, e não o encaro de forma diferente. Foi uma surpresa entrar no seu recinto e ser cumprimentada pela música das árvores, pelo cantar dos pássaros, pelos raios de sol que atravessavam os ramos e aqueciam a manhã fria de setembro. A paz, o cuidado, a empatia, estão entranhados naquele solo.
Encontrei uma equipa de profissionais empenhados em reabilitar os doentes, com psicoterapia, psicofármacos, e até através da arte. E achei fascinante conhecer os doentes e as suas patologias, com as quais nunca me havia cruzado.
Há algo muito particular na Psiquiatria que me fascina. Talvez sejam as patologias, talvez seja o desejo de tornar a vida de todos um pouco mais fácil. De qualquer das formas, levo no coração as memórias que construí nas minhas aulas de Psiquiatria.
Um dos maiores desafios deste semestre foi o meu estágio em Medicina Geral e Familiar. Não por ser difícil, ou desinteressante (muito pelo contrário), mas sim pela distância que tinha de percorrer para lá chegar. Cinquenta minutos de carro, com sorte; e como eu ainda não tenho carta de condução, tinha de me sujeitar aos transportes públicos, e a uma viagem de uma hora e meia. Felizmente, a casa do meu namorado é relativamente perto da Unidade, e a ida podia ser feita a pé. Mas foi muito, muito cansativo.
Almoçava no autocarro, mas as curvas e contracurvas frequentemente deixavam o meu estômago às voltas. E se chovesse, era certo que iria perder o segundo autocarro, e chegar atrasada às aulas da tarde.
No entanto, a paz que sentia durante aquela manhã era inigualável. De manhã, ao descer as ruelas da aldeia, avistava o reluzir do rio Douro, e sentia o vento fresco que soprava em minha direção. E ouvia pássaros. Há quanto tempo não ouvia pássaros? Os gatos brincavam nas bermas da estrada, em março já carregadas de flores, e era raro ouvir um carro, uma buzina, ou o som insistente de obras, já tão presente na cidade.
E a beleza da Medicina Geral e Familiar era ainda mais evidente naquela aldeia. O médico conhecia todos, e todos se conheciam entre si. Encontrei uma simpatia e educação que não encontro na cidade. E vi das mais diversas patologias, dos pequenos aos mais velhos.
Medicina Geral e Familiar é, para mim, uma das especialidades médicas mais bonitas, e um dos meus desejos é que fosse valorizada, e apreciada pela importância que tem.